quarta-feira, 19 de maio de 2010
História diferente
O telemóvel marca agora vinte e duas horas e trinta e tal minutos. Saio do turco com um saco de plástico na mão. Dentro, um durum de frango promete fazer as delícias de um estômago que não come há nove horas. Voltei de casa.
Entre um e o outro parágrafo, dezenas de histórias para contar.
As idas a casa são (quase só) versões diferentes de histórias parecidas. Começam normalmente cedo e acabam a chegar ao ponto de partida e a fechar o círculo já a noite caiu. Há a do Natal, aquela do Verão, depois repete-se a do Natal, seguida da do Verão…
Mas esta história foi diferente. Teve festa, como as outras, família, amizade, amor, mas foi diferente. Foi bom reunir à mesma mesa, em duas ocasiões, família e amigos e vê-los ali, em amena cavaqueira. Tanta conversa para ser dita e, no final, tão pouco tempo para tudo. Como sempre.
Li outro dia um ensaio sobre a família, a amizade e os tempos que correm. Dizia o autor (do qual não tenho nome de memória) que hoje, ao contrário do que era norma há muito, muito tempo atrás, temos a liberdade de escolher o nosso círculo de relações, construir “a nossa família”, e não sermos obrigados a viver com a que nos impõem. Tenho a sorte de as minhas duas “famílias” – a verdadeira e a outra, a de amigos – serem do melhor que há. E de pensar que com gente desta, voltar a casa, seja para mais uma história de Natal ou Verão ou para uma história diferente, vale sempre a pena.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Pantagruel, pág. 274: bolo burocrático
- BI e carta de condução
Modo de preparação:
Vá viver para o estrangeiro mas mantenha a sua morada legal em Portugal e leve consigo todos os seus documentos portugueses. Chegado/a lá fora, bata 2 claras de ovos, deixe-as num frigorífico – os ovos não são para aqui chamados – e vá mas é beber uma cerveja num café. Espere até que lhe roubem a carteira.
Deixe o preparado em banho-maria vários dias. Depois vá à embaixada e explique que quer fazer uma nova carta e um novo BI. O chefe depressa lhe dirá que o BI levará pelo menos um mês e que carta portuguesa é difícil de cozinhar por ali. Junte mais tempero: o BI emitido na embaixada – o tal que leva um mês – tão pouco servirá para fazer uma nova carta em Portugal. Cartas em Portugal só com BIs emitidos em território nacional.
Sete meses depois volte a casa de férias e vá à defunta DGV. Explique que está a cozinhar o bolo Simplex mas que lhe faltam ingredientes. Mostre o passaporte e peça uma segunda via da carta de condução. Fica a saber que o passaporte, ali, não serve como documento de identificação. Não perca a paciência e não argumente. Não pense sequer porque é que o passaporte lhe permite viajar para todo o mundo mas não serve o propósito de fazer uma nova carta. Use o tempo que lhe resta de forma construtiva e vá fazer um novo BI.
Chegado à Conservatória, peça o novo documento. “BIs já não existem. Só cartões do cidadão, podem demorar até dois meses e tem de vir levantá-lo pessoalmente ”, dir-lhe-ão.
Mais uma vez, não argumente contra a administração pública. Pense! Cabeça fria! Procure solução sabendo que precisa do documento já e que dali a uma semana e meia vai estar bem longe da Conservatória, logo do novo cartão.
Encontre o toque final para a sua receita num jogo de cintura burocrática que lhe vai permitir sentar-se à mesa e deliciar-se com uma fatia bem suculenta do cada-vez-mais-difícil-de-fazer-bolo.
Faça o novo cartão do cidadão e explique-lhes que não o vai buscar nos próximos 12 meses. Depois, entregue-lhes uma cópia do bilhete de avião de volta a casa para justificar o próximo passo: a requisição urgente de um BI à antiga. Documento na mão, corra ao que resta da DGV antes que feche e peça a sua nova carta.
Bom apetite.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Off we go...!
É Viena no princípio do séc. XX. Durante os próximos dias vou andar pela cidade das óperas... sem sombrinha e sem vestido.
